terça-feira, 14 de abril de 2015

Filhos regressam a casa com o seu agregado...

Há cada vez mais filhos a regressarem a casa dos pais, e muitas vezes trazendo a própria família. Um estudo da DECO revela também que esta situação está a levar muitos pais a endividarem-se de novo. 

Quando se conta um a um e se olha para todos como um todo, o número não muda muito. 

Comparam-se neste caso os primeiros três meses deste ano com o mesmo período do ano passado, e são mais de 7 300 que entraram na DECO a pedir ajuda famílias sobre endividadas com uma corda financeira ao pescoço.

O que muda em toda esta realidade são as razões que os levaram a recorrer a este apoio. O desemprego ou os cortes salariais continuam a ter um forte peso, sendo que as causas começam a mostrar sinais de diferença. 

Destacam-se agora a penhora dos vencimentos e o aumento do agregado familiar, cada vez com maior peso: "E porque os filhos já crescidos, mas confrontados com situações de desemprego, sentem necessidade de regressar à casa dos pais, muitas vezes com a própria família. Isto leva à ruptura do orçamento familiar. Por outro lado, temos uma outra causa, que acaba por estar relacionada com esta, que tem a ver com o aumento das penhoras dos vencimentos e dos bens, porque as pessoas assumiram dívidas que não conseguiram pagar. Mas muitas vezes essa dividas, não são dívidas próprias, são dívidas de terceiros mas elas assumiram-nas enquanto fiadores, e mais uma vez estamos a falar aqui dos pais."

Os pais suportam o peso que os filhos não conseguem carregar, e torna-se tudo isto pesado de mais. São cada vez mais os pais que assim se colocam e entram no gabinete de apoio da DECO. Mais de metade ganham menos que de 1.010€ mensais.

"Se nós formos olhar para o número de créditos que as famílias têm hoje, quando nos pedem ajuda, nós verificamos que em regra têm quatro créditos. Se recuarmos a 2008, nós verificamos que nessa altura tinham sete ou mais créditos, e era uma altura que sim, isso se verificava, hoje isso não acontece".

Créditos a nível pessoal para a habitação ou para automóvel e ainda um cartão de crédito. Há ainda casos de quem já não se entende com as contas da água, da luz ou das telecomunicações e pede ajuda à DECO.

No meio desta triste história, podemos dizer que se trata de um número (ainda?) reduzido de compatriotas a passar por estes dramas. 

Bem haja Euribor : -0,022% a um mês e 0,079% a 6 meses.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Bismarck - "Take care of that man; he means what he says"


Estou a ler a biografia de Bismack ou Otto Eduard Leopold von Bismarck-Schonhausen que faz parte de uma uma reduzida galeria de estadistas europeus. 

Este é um estudo intrigante de um líder, parte encantador "carismático", parte monstro implacável. Bismarck é trazido à vida por meio de centenas de citações a partir de uma grande variedade de políticos e pessoas com quem socializou. 

Um arqui-manipulador que conduziu política interna e externa - realpolitik- como um jogo de xadrez ou póquer que ele tinha que ganhar. homem de contradições, perseguiu os católicos quando lhe convinha politicamente, e foi muitas vezes grosseiramente anti-semita, não obstante ter entregue a gestão dos seus bens a um banqueiro judeu, e lembrou com saudade, na sua auto-biografia, os serões de discussões políticas com o socialista de origem judaica, Lasselle.

Esta biografia é assinada por Jonathan Stenberg, professor de História da Europa Moderna na Universidade de Pennsylvania e Emeritus Fellow do Trinity Hall de Cambridge.

Este é o mais agradável e melhor livro sobre a história alemã que li até à data. Resultado de muita pesquisa, o que se traduz no texto é, não obstante, acessível para compreender uma das mais atraentes e importantes figuras políticas do século XIX.

Em Londres, na casa do Embaixador Russo Brunnow, conheceu Benjamin Disraeli (Primeiro Ministro pelo Partido Conservador em 1868) novelista, dandy, orador brilhante, e ao mesmo tempo o único contemporâneo de Bismarck que se podia bater com ele em perspicácia e agilidade política. Esta foi a primeira ocasião em que estes dois notáveis homens se encontraram. 

Nesse dia Disraeli atónito, registou a afirmação de Bismarck sobre as suas intenções políticas:

“I shall soon compelled to undertake the conduct of Prussia government. My first care will be to recognise the army, with or without, the help of the Landtag… As soon as the army shall have been brought into such a condition as to inspire respect, I shell seize the first best pretext to declare war against Austria, dissolve the German Diet, subdue the minor states and give national unity to German under Prussian leadership. I have come here to say this to the Queen’s ministers.”

No regresso a casa Disraeli comentou com os seus acompanhantes: “Take care of that man; he means what he says”. 

O autor prossegue: “In June 1862 Otto von Bismarck explained to Benjamin Disraeli, Baron Brunnow, the Russian ambassador, and the Austrian envoy, Vitztuhm, at the Russiam ambassador residence in London what he intended to do when he took power. Nine years later, Bismarck had accomplished much more than in 1862 he had promised his astonished listeners in London” 

Este génio político conseguiu a unificação dos estados alemães, e soltou-se do domínio do antigo Império Austríaco. Introduziu um sistema de segurança social financiado pelo Estado um quarto de século antes de Lloyd George o ter feito na Grã-Bretanha. 

"Bismarck accomplished all this without commanding a single soldier, without dominating a vast parliamentary majority, without the support of a mass movement, without any previous experience of government, and in the face of national revulsion at his name and his reputation."

Otto Eduard Leopold von Bismarck era um Junker, título honorifico da nobreza superior, que significa jovem nobre, deriva de Jung e Herr. Junker foi historicamente usado em todo o reino de língua alemã como um título honorífico nobre, mas desde o século XIX, a designação ficou associada à nobreza da terra da parte oriental do Reino da Prússia e da cultura associada.

A propósito do seu nome de família, um dos seus maiores e mais chegados amigos, John Lothrop Motley, americano de Boston que conheceu Bismarck na Universidade de Gottingen, escreveu aos seus pais: 

“One can very properly divide the Germans into two classes: the Vons and the non Vons. Those lucky enough to have the three magic letters in front of their names belong to the nobility and as consequences are highly aristocratic. Without these the others can arrange all the letters of the alphabet in every possible combination, they remain plebs.”

Marcado desde a juventude como "o louco Junker", ele perdeu o senso de proporção com o peso do trabalho que assumiu, um exemplo clássico dos custos da incapacidade de delegar e, com a idade, tornou-se cada vez mais vingativo e necessitado de gerir os seus ataques de raiva

O retrato geral do caráter de Bismarck e uma explicação sobre as "conseqüências não intencionais" que levaram à Primeira Guerra Mundial e a ascensão de Hitler, fazem-me recomendar este livro, talvez apoiado por uma história mais básica do período..

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Poderosa e Descontrolada: A Troika

Uma hora e meia onde vale a pena gastar o tempo com este programa Franco-Alemão do Canal Arte. Percebe-se melhor o que passou desde 2010 até agora nos Países da moeda comum: Euro. (Podem ser activadas as legendas em Português)


Homenagem a Billie Holiday



Comecei a ouvir e a gostar de Jazz aos 17 anos, por influência de um amigo e vizinho meu. O pai dele trabalhava na BP passou uns anos nos USA. Ali teve o primeiro contacto com o Jazz, e de lá trouxe uma extensa colecção de vinis. 

Lembro-me o dia e, que o Luis com uns discos de Jazz debaixo do braço tocou à minha porta, para partilhar comigo umas horas a ouvir jazz, no novo gira-discos que o meu pai tinha acabado de comprar. 

O primeiro a girar no prato foi o The Modern Jazz Quartet Plays George Gershwin's Porgy and Bess, seguido de Time Out do The Dave Brubeck Quartet. No final falámos sobre o que acabávamos de ouvir, de uma forma muito superficial.

Consegui convencer o meu amigo a emprestar-me aqueles dois discos, com muitas recomendações e alertas da sua parte, sobre a estima que o pai tinha com os discos. Diga-se que na época, estes discos não se vendiam em Portugal. O “Take Five” quase gastou a agulha nos dias seguintes.

Nos anos setenta o Jazz, sobretudo em Lisboa, ainda era coisa quase desconhecida. Há quatro anos que José Duarte tentava aliciar os portugueses com o programa Cinco Minutos de Jazz.

Passado algum tempo, em 24 Maio de 1970 (conservo ainda o bilhete), e no âmbito dos eventos de inauguração da Fundação Gulbenkian fui assistir ao concerto do The Modern Jazz Quartet.

Daí para a frente a minha música de eleição é o Jazz, não obstante na época ter continuado a ouvir rock, que era a música da minha geração, e diariamente às 19 horas, quando entrava no ar o “Em Órbita”, a rádio estava ligada à espera das últimas novidades dos EUA e da Grã-Bretanha. 

Nessa época não ouvia jazz vocal, e o meu encontro com as vozes de Louis Armstrong e Ella Fitzgerald dá-se muito mais tarde. Um dia tomei contacto com Chet Baker, e a partir desse momento começa minha iniciação ao Jazz Vocal. Estive, no entanto muito longe de Billie Holiday, que ouvi pela primeira vez em 1979. 

Não guardo grandes recordações desta cantora, de que agora se celebram os 100 anos do seu nascimento, mas retive o tema “Fine and Mellow” do disco "Lady Sings the Blues" retirado de gravações feitas entre 1954 e 1956, acompanhada por Ben Webster e Lester Young, e que ainda hoje fazem parte de uma das minhas playlist do jazz vocal.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

TEMPO CONTADO: Finalmente acontece

Divino discurso directo puro e cristalino!

“Como se recrutam arquitectos em Portugal – o caso da Polígono”

Tenho um amigo arquitecto que trabalha nas energias alternativas há já cinco anos. Quando lhe perguntei a razão de ser da mudança da sua actividade e para a qual se formou, respondeu-me que “não foi ele que abandonou a arquitectura mas arquitectura que o abandonou". Hoje ganha a sua vida com a exploração duas pequenas centrais  fotovoltaicas cuja produção de energia elétrica vende na rede, à EDP. 

Tem também uma pequena empresa que se dedica à elaboração de projectos chave na mão, usando o sol como fonte de energia.

A sua última iniciativa foi a da plantação de pinheiros mansos, usando terrenos da família que estavam ao abandono. Deste projecto que começou com a apanha de pinhões nos Jardins de Serralves, resultaram 300 pinheiros em pleno crescimento, alguns já ultrapassando a fasquia dos 2 metros. Daqui pode resultar madeira se o preço da madeira de pinho for sedutor, quando os pinheiros estiverem capazes de ser cortados, ou pinhão para consumo, que como todos sabemos da última época natalícia, o seu preço levantou voo.

Outro arquitecto que teve que mudar o rumo da sua vida, foi o nosso filho. Como muito outros, saiu do País e desenvolve a sua profissão da República Checa. 

A crise atacou quem vivia muito da área da construção, seja das obras públicas ou particulares, deixando muitos arquitectos no desemprego, e a saída tem sido a emigração para outros países da Europa, América Latina e Ásia.

Nos últimos anos, vários ateliês de arquitectos consagrados, desde Álvaro Siza Vieira a Carrilho da Graça, têm vindo a alertar para as dificuldades do sector, desde o agravamento da crise económica do país, afectando a construção e o imobiliário. 

Se somarmos a esta situação o crescimento do número de licenciados em arquitectura, que segundo estimativas da Ordem dos Arquitectos atingiu os 30 000, estes dois factores conjugados em simultâneo, conduziram à actual situação de falta de trabalho.

As cidades apostaram muito na arquitectura enquanto criadora de ícones sociais e Portugal não foi excepção, usando fundos nacionais e europeus gastos na construção de escolas, estádios, museus e centros culturais. 

Devido à falta de trabalho, assiste-se a uma diversificação do exercício da profissão que pode levantar problemas de regulação, formação e responsabilidade, quando estes profissionais trabalham em design, artes cénicas, ou indústria.

Para se perceber melhor onde a arquitectura chegou em Portugal, o prémio do primeiro classificado no concurso de arquitectura para o revamping do Restaurante Panorâmico de Monsanto, é de 500€, com uma inscrição de 20€. Se o projecto for ganhador a associação promotora garante uma participação no próximo concurso.

O que me despertou para estas linhas de hoje foi o texto que se pode ler aqui: "Como se recrutam arquitectos em Portugal – o caso da Polígono”

segunda-feira, 6 de abril de 2015

A melhor maneira de doar



No novo livro de Peter Singer , “The Most Good You Can Do”, ele foca a nossa atenção num novo movimento em que suas próprias ideias desempenham um papel crucial: o altruísmo eficaz.

Bill e Melinda Gates consideraram "The Most good You Can Do" como "An optimistic and compelling look at the positive impact that giving can have on the world"

O altruísmo eficaz é construído sobre a ideia de que viver uma vida plenamente ética envolve fazer o “The most good you can do”. Isto exige uma visão não sentimental das doações de caridade: para ser merecedora de apoio, uma organização deve ser capaz de demonstrar que vai fazer melhor o bem com o nosso dinheiro ou o nosso tempo, do que outras opções em aberto.

Singer apresenta-nos um conjunto de pessoas notáveis que estão reestruturando as suas vidas de acordo com essas ideias, e mostra como viver de forma altruísta, muitas vezes leva a uma maior realização pessoal do que viver para si.

The Most Good You Can Do desenvolve os desafios que Singer faz aos que doam para as artes e para instituições de caridade focadas em ajudar os concidadãos, e não para aquelas ou aqueles para os quais, nós “can do the most good”

Os altruístas eficazes estão chamando a nossa atenção para as possibilidades de viver menos egoisticamente, e de permitir que razão, ao invés de emoção, determine como vivemos. The Most Good You Can Do oferece uma nova esperança para a nossa capacidade de resolver os problemas mais urgentes do mundo.

Singer tem sido o líder do movimento, e no Livro “The Most Good You Can Do” explora o significado de viver de forma ética.

O livro, traça uma visão sombria das doações de caridade convencionais, tais como apoio museus de arte, universidades, igrejas ou abrigos de cães. Singer pergunta: Apoiar um museu de arte é tão socialmente útil como, por exemplo, ajudar as pessoas a evitar a cegueira?

Afinal, uma instituição de ajuda americana, Helen Keller International, corrige  a cegueira nos países em desenvolvimento por menos de US $ 75 por paciente. É difícil ver como uma modesta contribuição para uma igreja, ópera ou universidade será tão transformadora como ajudar os cegos a ver.

GiveWell, um site que reflete o ethos do movimento doação eficaz, recomenda instituições de caridade particulares pelo custo-eficácia. As suas principais recomendações no momento são a Fundação Contra a Malaria, GiveDirectly (transferir o dinheiro diretamente para os mais pobres), a Iniciativa de Controle da Esquistossomose (a esquistossomose ou bilharzíase é uma doença crónica causada por platelmintos parasitas  e multicelulares do género Schistosoma. É a mais grave forma de parasitose provocada por organismos multicelulares, matando milhares de pessoas por ano), e a Iniciativa Mundial para a Desparasitação (desparasitação crianças).

O próprio Singer doa cerca de um terço dos seus rendimentos à caridade.

Ainda assim, interrogo-me sobre três coisas:
  1. Em primeiro lugar, onde é que vamos traçar a linha? 
  2. Se estamos dispostos a doar um terço dos nossos rendimentos para maximizar a felicidade, então por que não dois terços? 
  3. Por que não viver num parque de campismo de modo a ser capaz de doar 99 por cento e prevenir mais casos de cegueira?
Quero ir  jantar fora com a minha mulher sem sentimento de culpa; Quero ser capaz de ir assistir a um filme sem pensar que em vez disto deveria comprar uma cama com mosquiteiro. Há mais vida para além de auto-mortificação, e a obsessão com o cálculo de custo-benefício, parece-me que, não obstante a bondade da iniciativa, esta retira alguma alegria de viver.

Peter Singer é Professor de Bioética Princeton e de História e Filosofia em Melbourne. 

domingo, 5 de abril de 2015

Domingo de Páscoa

A minha Páscoa de infância não será por certo diferente da de todos vós. A visita do Compasso sempre fez parte da paisagem e tradição lá de casa, já despontada a Primavera lá ia com os meus irmãos apanhar flores, e decompostas as pétalas para formar na entrada o obrigatório tapete de boas vindas. À frente o miúdo com a sineta, depois o padre, o mais robusto acólito com a cruz e os outros também formavam distinta embaixada. Entravam de cabeça levantada, era a oportunidade de esfregarem os olhos na casa do senhor doutor e por isso a minha mãe os detestava, apesar de pôr na mesa a melhor toalha de linho. Depois de palavras solenes o meu pai ajoelhava-se, todos beijavamos a cruz e esta depois repousava no melhor lugar do sofá. Rebuçados para o puto da sineta, os outros matavam a sede com o melhor vinho do Porto, o hípócrita pedia água porque iria ser longa a jornada. Hoje é domingo de Páscoa, os meus pais mais velhotes e lúcidos foram passear, eu estou em casa e sou pontual quando o meu sogro disser que o cabrito está pronto. De manhã fui dar uma volta de bicla, e na marginal de Matosinhos junto à praia ouvi a sineta da minha infâcia. Sim, era ela nas mãos de uma miúda gira, outra segurava a imagem de Jesus cruxificado para dar a beijar, e atrás um grande poster num tripé com essa mesma imagem enquadrava o cenário. Ao fundo o mar e a praia. Parei e como outros ia praticar o acto da minha infância, mas travei a tempo porque logo ali avistei 3 brasas em topless, e eu não posso beijar um com o olhar pregado noutras. Boa Páscoa para todos.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Os Checos saíram à rua para saudar uma coluna militar americana...

Começa assim um mail do meu filho para mim: “Soubeste disto? Foram recebidos em festa pelos Checos. Auto-estradas cheia de simpatizantes para os receber e um grande concerto de apoio na Venceslav Namesti. Achei estranha a reacção. Fiz um comentário jocoso enquanto via as imagens. A Hana respondeu assertivamente: “If it wasn’t them we would be talking Russian." Realmente para nós portugueses, tão distantes, esta ameaça não faz parte do nosso cotidiano."

Uma coluna militar motorizada de cerca 500 soldados americanos estiveram a fazer um tour de 1.100 km na Europa, desde os Países Bálticos, até à sua base na Alemanha, passando pela Polónia e República Checa. Conhecida como Operação Dragon Ride. Tratava-se de uma demonstração de força desenhada para aliviar as preocupações sobre uma eventual agressão russa.


Apesar da existência de alguns grupos pró-russos, a onda de mensagens anti-americanas oriundas do Kremlin, não conseguiram ter eco na República Checa, e os Checos saíram à rua em massa para os receber.

A reacção do meu filho, foi a que muitos portugueses teriam na mesma situação. Está por lá há três anos, e não obstante um padrão de comportamento típico da sua geração, com o Erasmus, a Ryanair, e a crise de 2008, a traduzirem-se num modo de vida muito igual: Sharing, modo de vestir, pensamento de curto prazo, viver com menos dinheiro, há diferenças. Oriundo de Portugal não sente, como a maioria dos Portugueses os Russos como uma ameaça à sua soberania. 

A onda seria mais de “Americans go home”!

Mas na República Checa a coisa muda, e o apoio esmagador dos checos, até atrapalhou os líderes ocidentais, que consideravam os checos a moverem-se mais perto da órbita de Moscovo.

Vários protestos anti-NATO e anti-EUA chegaram a estar anunciados por organizações pró-russas antes da chegada do comboio militar americano.

As chamas foram atiçadas por sites da internet e por canais de televisão como a RT, que afirmavam que os checos eram fortemente contra as tropas estrangeiras que entravam no seu país, comparando o comboio militar a uma ocupação estrangeira.

Segundo o New York Times, alguns diplomatas ocidentais temem que Praga esteja fora da sintonia com União Europeia não se opondo à entrada de tropas russas na Ucrânia. O governo de coligação da esquerda Checo, foi contido nas suas críticas a Moscovo.

O presidente Milos Zeman gerou críticas ao chamar ao conflito na Ucrânia uma guerra civil, minimizando qualquer envolvimento russo, e tem na sua agenda a participação numa parada militar em Moscovo no próximo mês de Maio.

O embaixador americano em Praga, Andrew Schapiro disse na televisão Checa na passada segunda-feira: “Acho que, sendo provavelmente o único chefe de estado da UE a estar presente naquele desfile militar, num momento em que os Russos estão a desestabilizar a nação europeia, não é realmente uma boa mensagem para enviar.

Enquanto o seu governo age desta forma, o povo checo tornou-se activo ao expressar apoio à NATO. 

Os checos saíram à rua aos milhares no domingo passado, empunhando bandeiras americanas, oferecendo às tropas cerveja checa e bolos.


Os jornais da República Checa, ficaram agitados e surpreendidos com a reacção da população, e no domingo publicaram fotos dos checos sorrindo para a câmera confraternizando com as mulheres e homens das tropas americanas, em contraste com fotografias antigas da época da violenta invasão da Checoslováquia pelo Pacto de Varsóvia em 1968.

O Ministro da Defesa checo Martin Stropnicky disse que a propaganda anti-ocidental feita pela Rússia, saiu-lhe pela culatra, levando até a um maior apoio da NATO pelo povo Checo.

Na terça-feira, alguns soldados norte-americanos foram visitar a cidade de Pilsen ou Plzen para prestar homenagem aos seus camaradas de armas que morreram na segunda guerra mundial, para libertar a parte ocidental da Checoslováquia em 1945. 

Também na terça-feira houve um concerto com uma série de lendas da música Checa na base militar de Praga onde se encontravam hospedadas as tropas norte-americanas.

Houve franjas da população que se manifestaram contra a presença das tropas da NATO, e foram vistos cartazes com a frase “Checos contra a Nato”. Nenhuma desta atitude foi patente na Estónia, Letónia, Lituânia ou Polónia - países que se consideram muito mais diretamente em risco de uma futura agressão russa. 

Também esta não foi a opinião dominante na República Checa. Com efeito, um grupo de pilotos de Harley-Davidson acompanhou  o comboio americano na fronteira Checa para escoltá-lo através do país.

As tropas norte-americanas regressaram quarta-feira à sua base. 

Por cá não se ouviu falar do que se passou na Polónia e na República Checa, e uma pesquisa nos jornais europeus de referência também não foi dada relevância ao que se passou a leste da UE.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Jacques Prevert




Mon Mari

Il a mis le café dans la tasse
Il a mis le lait dans la tasse à café
Il a mis le sucre dans le café au lait
Avec la petite cuiller il a tourné
Il a bu le café au lait 
      et il a reposé la tasse.
Sans me parler.
Il a allumé une cigarette
Il a fait des ronds avec la fumée
Il a mis les cendres dans le cendrier.
Sans me parler.
Sans me regarder il s'est levé
Il a mis son chapeau sur la tête
Il a mis son manteau de pluie
        parce qu'il pleuvait
Et il est parti sous la pluie
Sans une parole, sans me regarder
Et moi, j'ai pris ma tête dans mes mains
Et j'ai pleuré.

                                                    
                    Jacques Prevert

( Ce qui a pu se passer en 1961, ne se passera plus en 1962)

terça-feira, 31 de março de 2015

Economia de partilha



Sharing economy, em inglês. traduz-se dificilmente por “economia da partilha” em Português. E, no entanto, designa bem esta economia, que apesar de entre nós não haver ainda uma designação aceite por todos, alguns chamam de “colaborativa”. Baseia-se na colocação no mercado do uso de um bem que alguém tem a posse. A viatura e a casa são os bens mais caros, propriedade da maoria das pessoas, e foi através da colocação à disposição de veículos e quartos, até mesmo apartamentos inteiros, que a economia colaborativa levantou voo.

Um amplo espectro e contornos fluidos, especialmente quando se trata de quantificar o valor dos bens e serviços trocados, bem como atividade associada criada. Uma coisa é certa, o potencial é visto como enorme. A PriceWaterhouseCoopers realizou uma extensa análise quantitativa que publicou no verão de 2014, sobre o potencial de crescimento deste sector: No quadro da amostra utilizada, inclui-se financiamento participativo (Kickstarter, por exemplo), o "pessoal" online (trabalho temporário à tarefa...), aluguer sazonal (Airbnb, HouseTrip ...), a partilha de carro (BlaBlaCar) e de "streaming" audio e vídeo. A empresa estima em 335,000 biliões de dólares (309 biliões de euros) a dimensão desta economia em 2025, contra 15 biliões hoje.

Bom desempenho para um sector tão jovem, mas cujas bases foram lançadas há muito tempo. Os historiadores da sharing economy encontram as suas origens nos "commons", terras geridas colectivamente na Inglaterra medieval, detidas por senhores feudais, mas que permitiam a qualquer pessoa ajudar a cuidar das terras ficando com parte dos seus frutos. Três séculos após a extinção deste regime, o tema do uso renasce, impulsionado pelas grandes inovações tecnológicas, mas também por um ambiente económico propício à criatividade.

O decréscimo dos preços de acesso à internet e a democratização dos smartphones popularizaram o uso de sites e aplicações para telemóveis, e alguns bens básicos tornaram-se cargas pesadas: O preço do imobiliário experimentou cinco anos de crescimento quase ininterrupto em todos as principais metrópoles do mundo, e a posse de uma viatura, em cidade, tornou-se cara. Neste contexto, a utilização da capacidade pelo seu uso, tornou-se, na década de 2010, mais importante do que a propriedade.

Sites de partilha como o Airbnb, HouseTrip ou Lyft (grande concorrente do Uber nos EUA) permitem gerar um rendimento adicional a muita gente que esteja disposta a optimizar a utilização dos seus bens. 

Este novo tipo de economia dá também às famílias ou empresas, oportunidades para economizar dinheiro em serviços incontornáveis, tais como as deslocações e estadias: A desintermediação que oferece plataformas on-line baixam automaticamente o preço dos bens oferecidos, bem como o desenvolvimento de tecnologias de pagamento através de telemóvel (e agora os relógios com a Apple) tem desinibido os compradores mais desconfiados. Finalmente, geolocalização e a Internet móvel aproximam os consumidores dos serviços disponíveis. A confiança é agora dada através dos sistemas de recomendação (tripadvisor, etc), de classificação e comentários que vão substituído gradualmente a classificação administrativa

Esta economia de partilha tem um visual inovador, amigável ou ambientalmente amigável. Numa altura em que estas start-ups que não têm 10 anos viram a sua cotação em bolsa a levantar voo: 40 biliões de dólares para Uber (mais do que a Delta Airlines), 13 biliões para a Airbnb -, os discursos críticos, no entanto, multiplicam-se . Estamos testemunhando um retorno ao conceito dos “commons", ou, pelo contrário, ao mercado no seu estado mais puro?. Muitos suportam a segunda hipótese: melhorando a taxa de utilização dos recursos, a economia de partilha, gera uma maior rendimento.

Esta economia também está longe de ser igualitária: é principalmente a classe média que beneficia deste desenvolvimento, ao contrário das camadas mais modestas, que têm menos activos para colocar no mercado. Além disso, essas práticas são muito facilmente industrializáveis: um site de partilha pode, com alguns investidores ricos e um punhado de bons engenheiros, transformar-se num peso pesado e capturar a maior parte da criação de valor. E isto para reinvestir ... normalmente em capital. Este é tipicamente um efeito “rebote”: uma poupança feita de um lado transforma-se num gasto do outro lado.»

Com a economia de partilha, é também o trabalho que muda com o ressurgimento inesperado da noção de "artesão" - o trabalhador que domina sua produção de A a Z. Se os mais optimistas veem nas plataformas colaborativas a ocasião de se re-apropriar da ferramenta de trabalho, outros a olham-na como uma fábrica de temporários sem salário fixo ou segurança social, e sem muitos direitos para se defender. Encontramo-nos com um sistema económico que está ali apenas para satisfazer os que compraram e os que os financiaram. Essa deriva começa a fazer estragos: nos Estados Unidos, a procura de recrutamento da Uber e de outras empresas de Veículos de Passageiros com Condutor (VPC) é tal, e a necessidade de trabalho tão cruel, que particulares não hesitam em pedir dinheiro emprestado - normalmente a preços elevados, porque muitas vezes têm um mau histórico de crédito - para comprar um sedan preto que lhes permitirá integrar a comunidade motoristas Uber.

A necessidade de chegar em primeiro lugar e ser o maior para ganhar o mercado (“winner takes all") conduz também a ir buscar dinheiro onde ele flui em abundância. Em França, grande parte das,10.000 empresas que repartem os negócios da "colaboração" são apoiadas por investidores muito tradicionais - os grandes bancos ou fundos de capital de risco. Mas os critérios para essas instituições em termos de retorno sobre o investimento não mudaram ao longo dos anos.

Se engordar é uma obrigação, capturar a máxima margem é outra. Não é por acaso que este tipo de plataforma oferece mais do que um serviço. A gente do marketing costuma dizer, que a margem mais elevada a retirar de um produto é, no momento do consumo -  o estágio da "experiência" e, portanto, já longe da produção, transformação e serviço. Quando Airbnb refina sua aplicação para dar ao internauta a impressão de que ele está surfando um site de aluguer de luxo, onde será recebido com todas as garantias possíveis, gera uma experiência positiva. E recolhe os frutos financeiros.

Será necessária a introdução de legislação e regulação nesta economia, se quisermos evitar acabar numa "tragédia dos commons", posta em evidência em 1960 pelo norte-americano Garrett Hardin, que explica: Num campo aberto, cada criador deve pastar o melhor gado possível - mesmo empobrecendo o terreno para outros criadores, mas também para si mesmo.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Saúde! Prost! Cheers! Salute!

É uma coisa quase universal: O som dos copos que se chocam num brinde. O que muda de um país para outro, é a natureza do néctar que se encontra dentro dos copos. Vinepair, um web site com conteúdos sobre o vinho e a cerveja, criou um mapa que mostra a cerveja preferida em cada país do mundo. Para o fazer, o site utilizou dados provenientes de "dezenas de fontes", de estudos e informações directamente dos fabricantes, para determinar as quotas de mercado de cada território. Certos países como Angola ou Mongólia foram excluídos, por não haver dados disponíveis. Em Portugal, é a Sagres a preferida dos Portugueses.

sábado, 28 de março de 2015

A Casa da Música, A História da Alemanha e a Ausência J. S. Bach

A Casa da Música tem este ano o propósito de contar a história da Alemanha através dos seus maiores compositores, desde o século XVI até à actualidade. Do programa fazem parte obras dos compositores, Hassler, Schutz, os concertos para piano de Beethoven apresentados por Pedro Burmester e a Orquestra Sinfónica, Weber e Wagner. Do século XX, teremos a tradição coral segundo a interpretação de Stochausen, e finalmente o contemporâneo Helmut Lachemann, que segundo o programa é "...um dos mais inovadores compositores das últimas décadas". 

Sucede, que do meu ponto de vista, a proposta da Casa da Música no ano da Alemanha, não dá o devido relevo a J.S.Bach.

Em Janeiro fui assistir a um concerto pela Orquestra Barroca Casa da Música com o título "No tempo de Bach". O Maestro Laurence Cummings dirigiu e tocou cravo de sete compositores alemães do barroco, sem uma única composição de J.S.Bach. Percebo que "No tempo de Bach" não significa que ele esteja presente, mas não concebo música barroca alemã sem uma única obra do grande compositor. 

De facto, o programa deste concerto referia que "o maestro Laurence Cummings nos levava ao encontro da música do seu tempo, de compositores com quem Bach conviveu ou cuja música ouviu e transcreveu. Do celebérrimo Canon de Pachelbel, professor do irmão mais velho de Bach, à música dos seus primos Johann Ludwig e Johann Bernhard ou do seu filho mais novo, imortalizado como o Bach londrino, passando por um dos concertos do seu compadre Georg Telemann, esta é uma viagem ao glorioso mundo musical com que Bach conviveu.", e portanto J.S.Bach estaria ausente.

Olhando para o programa da Casa da Música para o resto do ano, e tendo presente o tema de 2015, deveríamos ter mais oportunidades de ouvir obras de J.S.Bach, que para além de ser considerado o maior nome da música barroca, por muitos é tido como um dos maiores compositores de sempre.

Os Concertos de Brandenburgo, Cravo Bem-Temperado, Tocata e Fuga em Ré Menor, entre outras, são imprescindíveis para entender o período barroco e a música clássica alemã. 


sexta-feira, 27 de março de 2015

Voltar aos anos 60


Imagine que quer encomendar um verdadeiro Mini de origem,  num estado muito próximo de novo... É possível em Paris, em 2015, através da "My Mini Revolution" uma empresa de jovens apaixonados pela marca que recuperam carros ou chassis antigos para reconstituir um Mini dos anos 60 -70. Uma muito boa, maneira de andar na estrada e de se distinguir dos outros cum um suplemento de alma.

Se, depois de 2001, o renascimento do Mini pela BMW é um enorme sucesso comercial, torna-se difícil de não sentir uma verdadeira ternura pela versão original. Não é raro ver ainda a circular este pequeno automóvel ultra-urbano com o seu charme particular. Não obstante foram vendidos 5,3 milhões de modelos desde a sua criação até ao ano 2000. Produzido a partir de 1959 pela empresa BMC (British Motor Corporation), o Mini foi uma resposta britânica à crise do canal do Suez (1956), que provocou um racionamento da gasolina no Reino Unido, e que também tivemos em Portugal.


Desde a sua concepção pelo engenheiro Alec Issigonis, o Mini afirmou-se como uma revolução: pela sua notável habitabilidade se olharmos para as suas dimensões, devido, por um lado, à colocação das rodas de 10 polegadas nos quatro cantos do automóvel, e por outro, pela posição transversal do seu bloco motor-caixa colocados à frente, numa época em que a concorrência (VW carocha e Fiat 500) insistia na propulsão e motor atrás.

Alguns irredutíveis continuam a não quer ceder ao novo Mini, lançado pela BMW, proprietária desde 1994, e para aqueles só o primeiro é o genuíno. 

Ao longo dos anos quis ter um original, mas por uma razão ou por outra, a ocasião não apareceu, e conduzo um dos novos há dois anos. Não tem nada a ver com o original, mas é sem dúvida um carro original, agora mais robusto e com menos ruídos, sem ter abandonado aquele velocímetro redondo  no centro do tablier que o torna único.

quarta-feira, 25 de março de 2015

"Heretic: Why Islam Needs a Reformation Now”

Este ensaio é adaptado do novo livro de Ayaan Hirsi Ali, "Heretic: Why Islam Needs Reformation" de Ayaan Hirsi Ali, lançado ontem pela editora Harper Collins. O olhar que tem a autora sobre o actual Islão, o comportamento dos fanáticos e do resto dos crentes muçulmanos é extremamente interessante, bem como as propostas de "reforma".

“As fronteiras do Islão são sangrentas", escreveu o falecido cientista político Samuel Huntington em 1996 "e por isso são suas entranhas." Quase 20 anos depois, Huntington parece mais certo do que nunca. De acordo com o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, pelo menos 70% dos mortos em conflitos armados em todo o mundo, no ano passado, resultaram de guerras envolvendo muçulmanos.

Em 2013, houve cerca de 12 mil ataques terroristas em todo o mundo. A parte de leão foi em países de maioria muçulmana, e muitos dos outros foram realizados por muçulmanos. De longe, o maior número de vítimas da violência muçulmana - incluindo execuções e linchamentos, não capturados pelas estatísticas - são os próprios muçulmanos.

Nem toda essa violência é explicitamente motivada pela religião, mas uma grande parte dela é. Creio que é tolice insistir, como os líderes ocidentais habitualmente fazem, que os actos de violência cometidos em nome do Islão, podem de alguma forma serem dissociados da própria religião. Por mais de uma década, a minha mensagem foi simples: O Islão não é uma religião de paz.

Com isto não quero dizer que a crença islâmica faz de todos os muçulmanos violentos. Este não é manifestamente o caso: Há muitos milhões de muçulmanos pacíficos no mundo. O que eu digo é, que a chamada para a violência e a sua justificação, estão explicitamente mencionados nos textos sagrados do Islão. Além disso, essa violência teologicamente sancionada, está lá para ser activada por qualquer tipo de crimes, incluindo, mas não limitada a apostasia (punida com pena de morte na Arábia Saudita) adultério, blasfémia e até mesmo algo tão vago como ameaças à honra da família ou à honra do próprio Islão.

Não é apenas a Al Qaeda e Estado islâmico que mostram a face violenta de fé e prática islâmica. No Paquistão, qualquer declaração crítica do Profeta ou do Islão é rotulada como blasfémia e punível com a morte. É a Arábia Saudita, onde as igrejas e sinagogas são proibidas e onde decapitações são uma forma legítima de punição. É Irão onde o apedrejamento até à morte é uma punição aceitável, e os homossexuais são enforcados por seu “crime".

A meu ver, o problema fundamental é que a maioria dos muçulmanos de outra forma pacíficos e cumpridores da lei, não estão dispostos a reconhecer, muito menos capazes de repudiar, o mandato teológico da intolerância e violência contida nos seus próprios textos religiosos. Eles simplesmente não vão clamar que a sua religião foi "sequestrada" por extremistas. Os assassinos de Estado islâmico e do Boko Haram, citam os mesmos textos religiosos que todos os outros muçulmanos no mundo consideram sacrossantos.

Em vez de falar da religião muçulmana utilizando brandos clichés, no Ocidente precisamos de desafiar e debater a própria essência do pensamento e da prática islâmica. Precisamos de responsabilizar o Islão pelos actos de seus adeptos mais violentos e exigir que reformem ou repudiem as crenças fundamentais que são usadas para justificar esses actos.


Como se sabe, o Ocidente tem experiência com este tipo de projeto reformista. É precisamente o que ocorreu no judaísmo e cristianismo ao longo dos séculos, como ambas as religiões gradualmente, expeliram as passagens violentas de seus próprios textos sagrados, para o passado. Muitas partes da Bíblia e do Talmude refletem normas patriarcais, e ambas também contêm muitas histórias da dureza humana e da retribuição divina. Como o presidente Barack Obama disse no discurso na National Prayer Breakfast no mês passado, "Lembrem-se que durante a época das Cruzadas e da Inquisição, as pessoas cometeram actos terríveis em nome de Cristo.”


No entanto, hoje, porque as suas crenças passaram por um processo longo e significativo de Reforma e do Iluminismo, a grande maioria dos judeus e cristãos têm vindo a ignorar as escrituras religiosas que instam à intolerância ou violência. Existem franjas ortodoxas em ambas as religiões, mas são verdadeiras franjas. Lamentavelmente, no Islão, é o contrário: são aqueles que procuram a reforma religiosa que constituem a franja.

Qualquer discussão séria sobre o Islão deve começar pelo seu credo nuclear, que é baseado no Corão (as palavras que se diz terem sido reveladas pelo anjo Gabriel ao Profeta Maomé) e do Hadith (as obras que acompanham e detalham a vida e a palavra de Maomé). Apesar de algumas diferenças sectárias, este credo une todos os muçulmanos. Todos, sem excepção, sabem de cor as seguintes palavras: "Eu testemunho que não há outro Deus além de Alá; e Maomé o seu profeta ". Esta é a Shahada, a profissão de fé muçulmana.

Após 10 anos de tentativas deste tipo de persuasão, ele e seu pequeno grupo de crentes foram para Medina, e a partir desse momento, a missão de Maomé tomou uma dimensão política. Não crentes ainda foram convidados a submeter-se a Alá, mas depois de Medina, eram atacados se recusavam a submeter-se a esta nova religião. Se derrotados, tinham duas opções: a de se converter ou morrer. (Judeus e Cristãos poderiam manter a sua fé, se submetidos, pagando um imposto especial). Nenhum símbolo representa mais a alma do Islão do que o Shahada. Mas hoje há uma disputa dentro do Islão sobre a propriedade desse símbolo. Quem possui a Shahada? São aqueles muçulmanos que querem enfatizar os anos de Maomé em Meca ou aqueles que são inspirados pelas suas conquistas após Medina? Nesta base, eu acredito que nós podemos distinguir três diferentes grupos de muçulmanos

O primeiro grupo é o mais problemático. São os fundamentalistas que, quando dizem que a Shahada, significa: " Temos que viver pela letra estrita do nosso credo", planeiam um regime baseado na sharia, a lei religiosa islâmica. Eles defendem um Islão em grande parte ou completamente inalterado com a versão original do século VII. Mais, consideram uma exigência da sua fé que querem impôr a todos os outros.

Vou chamá-los muçulmanos de Medina, que vêem a imposição forçada de Shariah como seu dever religioso. Eles não visam apenas obedecer aos ensinamentos de Maomé, mas também emular a sua conduta guerreira após sua mudança para Medina. Mesmo se eles próprios não praticam a violência, não hesitam em aceitá-la.

São os muçulmanos de Medina que chamam aos judeus e cristãos "porcos e macacos." São os muçulmanos de Medina que prescrevem a morte pelo crime de apostasia, a morte por apedrejamento por adultério e a forca para a homossexualidade. São ainda, os muçulmanos de Medina que colocam as mulheres com burcas e que lhes batem se deixarem as suas casas sozinhas ou se o véu não estiver devidamente colocado.


O segundo grupo, está em clara maioria em todo o mundo muçulmano - constituído de muçulmanos que são leais ao credo nuclear e o adoram com devoção, mas não estão dispostos a praticar a violência. Designo-os por muçulmanos de Meca. Como os cristãos ou judeus devotos que frequentam os serviços religiosos diariamente e respeitam as regras religiosas, no que comer e vestir, os muçulmanos de Meca também se concentram na observância religiosa. Eu nasci na Somália e fui criada como uma muçulmana de Meca. Assim eram a maioria dos muçulmanos de Casablanca a Jacarta.

No entanto, os muçulmanos Meca tem um problema: As suas crenças religiosas estão numa tensão desconfortável com a modernidade - o complexo de inovações económicas, culturais e políticas que não só reformulou o mundo ocidental, mas também transformou radicalmente o mundo dos países em desenvolvimento, para o qual o Ocidente exportou este modo de vida. Os valores racionais, seculares e individualistas da modernidade são fundamentalmente corrosivos das sociedades tradicionais, particularmente hierarquizadas, baseadas no sexo, idade e do inerente status.

Presos entre dois mundos, o da crença e da experiência, estes muçulmanos estão envolvidos numa luta diária para aderir ao Islão, num contexto de uma sociedade que desafia em cada momento os seus valores e crenças. Muitos são capazes de resolver esta tensão retirando-se em enclaves auto-fechados. Isso é designado por cocooning, uma prática em que os imigrantes muçulmanos se fecham a influências externas, permitindo apenas uma educação islâmica para os seus filhos e não se integrando na comunidade não-muçulmano em geral.

A minha esperança é a de envolver este segundo grupo de muçulmanos - mais perto de Meca do que Medina - num diálogo sobre o significado e a prática da sua fé. Eu reconheço que esses muçulmanos não são susceptíveis de responder a uma chamada para reforma doutrinária de alguém que eles consideram como uma apóstata e infiel. Mas eles podem reconsiderar se eu os conseguir convencer a pensar em mim não como uma apóstata, mas como um número crescente de pessoas nascidas no Islão que têm procurado pensar criticamente sobre a fé. É com este terceiro grupo - apenas alguns dos quais deixaram Islão completamente - que eu agora me identifico.

Estes são os dissidentes muçulmanos. Alguns de nós foram forçados, pela experiência, a concluir que não podíamos continuar a ser crentes; Ainda permanecemos profundamente comprometidos no debate sobre o futuro do Islão. A maioria dos dissidentes são crentes reformadores - entre eles, clérigos que têm vindo a perceber que sua religião deve mudar para que os seus seguidores não devam ser condenados a um ciclo interminável de violência política.

Quantos muçulmanos pertencem a cada grupo? Ed Husain do Conselho de Relações Exteriores estima que apenas 3% dos muçulmanos do mundo, entendem o Islão nos termos militantes que eu associo com o tempo de Maomé em Medina, ou seja 48 milhões de um universo 1,6 bilhão de fiéis, ou 23% da população do globo. (Eu elevaria o número significativamente, com base em dados de pesquisa sobre atitudes em relação à Shariah em países muçulmanos.)

Em qualquer caso, independentemente dos números, foram os muçulmanos de Medina que capturaram a atenção do mundo nos media, em demasiadas mesquitas e, é claro, no campo de batalha.

Os muçulmanos de Medina representam uma ameaça não apenas para os não-muçulmanos. Eles também minam a posição dos muçulmanos de Meca que tentam levar uma vida tranquila em seus cocoons culturais em todo o mundo ocidental. Mas aqueles sob a maior ameaça são os dissidentes e reformadores dentro do Islão, que enfrentam o ostracismo e a rejeição, que devem enfrentar todo tipo de insultos, que têm que lidar com as ameaças de morte, ou com a sua própria morte. 

Para o mundo em geral, a única estratégia viável para conter a ameaça representada pelos muçulmanos de Medina é colocar-se ao lado dos dissidentes e reformadores para os ajudar a fazer duas coisas: em primeiro lugar, identificar e repudiar as partes do legado de Maomé que convocam os muçulmanos à intolerância e guerra, e, segundo, convencer a grande maioria dos crentes - os meca-muçulmanos - a aceitar essa mudança.

O Islão está numa encruzilhada. Os muçulmanos precisam tomar uma decisão consciente para confrontar, debater e, finalmente, rejeitar os elementos violentos dentro da sua religião. Até certo ponto - não menos importante, por causa da repulsa generalizada com as atrocidades do Estado islâmico, da Al Qaeda e do resto - este processo já começou. Mas ele precisa de liderança dos dissidentes, e eles por sua vez, não tem nenhuma chance sem o apoio do Ocidente.

O que é necessário que aconteça para que possamos derrotar os extremistas para sempre? Ferramentas económicas, políticas, judiciais e militares têm sido propostas e algumas delas implementadas. Mas eu acredito que isto terá um pequeno efeito a menos que o próprio Islão se  reforme.

Essa reforma tem sido reclamada por várias vezes, pelo menos, desde a queda do Império Otomano e da posterior abolição do califado. Mas eu gostaria de especificar exatamente o que precisa ser reformado.

Identifiquei cinco preceitos centrais ao Islão que se tornaram resistentes às mudanças históricas e adaptação aos tempos. Somente quando a nocividade destas ideias forem reconhecidas e repudiadas, uma verdadeira Reforma Muçulmana será alcançada.

Aqui estão as cinco áreas que requerem alteração:
  1. Estatuto semi-divino de Maomé, juntamente com uma leitura literal do Corão. Maomé não deve ser visto como infalível, e muito menos como uma fonte de ordem divina. Ele deve ser visto como uma figura histórica que uniu as tribos árabes num contexto pré-moderno que não pode ser replicado no século XXI. E, embora o Islão afirme que o Corão é a palavra literal de Deus, ela é, na realidade histórica, um livro que foi moldado por mãos humanas. Grande parte do Corão simplesmente reflete os valores tribais do contexto árabe do século VII do qual emergiu. Valores espirituais eternos do Corão devem ser separados dos acidentes culturais do local e data de seu nascimento.
  2. A supremacia da vida após a morte. O apelo ao martírio irá desaparecer somente quando os muçulmanos atribuírem um maior valor para aos frutos desta vida do que aqueles prometidos no futuro.
  3. Shariah, a vasta legislação religiosa. Os muçulmanos devem aprender a colocar a dinâmica, das leis feitas por seres humanos acima dos aspectos da sharia que são violentos, intolerantes ou anacrónicos.
  4. O direito individual dos muçulmanos para impor a lei Islâmica. Não há lugar no mundo moderno para a polícia religiosa, vigilantes e clérigos politicamente capacitados.
  5. O imperativo para travar a jihad, ou guerra santa. O Islão deve tornar-se uma verdadeira religião de paz, o que significa rejeitar a imposição da religião pela espada.
Eu sei que estes argumentos vão fazer com que muitos muçulmanos se sintam desconfortáveis.
Alguns se ofenderão com as minhas propostas de alterações. Outros alegarão que eu não estou qualificada para discutir estas complexas questões de teologia e direito. Eu também tenho medo - genuinamente receosa - que eles possam fazer com que alguns muçulmanos fiquem mais ansiosos em me silenciar.

Mas este não é um trabalho de teologia. É mais a natureza de uma intervenção pública no debate sobre o futuro do Islão. O maior obstáculo à mudança dentro do mundo muçulmano é precisamente a supressão do tipo de pensamento crítico que aqui estou tentando. Se a minha proposta de reforma ajuda a desencadear uma discussão séria sobre estas questões entre os próprios muçulmanos, vou considerá-la um sucesso.

Deixem-me deixar duas coisas claras. Eu não quero inspirar uma nova guerra contra o terror ou extremismo -  a violência em nome do Islão não pode acabar apenas por meios militares. Também não sofro de “islamofobia.” Por várias vezes, eu mesmo fui os três tipos de muçulmana: Uma fundamentalista, uma crente fechada em mim própria e uma dissidente. A minha viajem foi de Meca para Medina,e daqui para Manhattan.

Para mim, parecia não haver maneira de conciliar a minha fé com as liberdades que eu vim abraçar no Ocidente. Deixei a fé, apesar da ameaça da pena de morte prescrita pela Shariah para apóstatas. As futuras gerações de muçulmanos merecem melhores opções, mais seguras. Os muçulmanos devem poder acolher a modernidade e viver num estado de dissonância cognitiva.

Mas não serão só os muçulmanos que beneficiariam de uma reforma do Islão. Nós, no Ocidente não podemos ficar à margem, como se o resultado não tivesse nada a ver connosco. Porque, se os muçulmanos de Medina ganharem, a esperança de uma Reforma muçulmana morre, o resto do mundo também vai pagar um enorme preço, não só em sangue derramado, mas também em liberdade perdida.